Os voos de Saint-Exupéry

Em francês, élève é aluno, do verbo élever, do latim elevare – o aluno existe para elevar-se ao melhor possível. Os educadores, portanto, poderiam ser vistos como aqueles que nos ensinam a voar. Os voos da inteligência e da imaginação. Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), escritor e aviador, leva-nos (eleva-nos) a contemplar a realidade de novos pontos de vista.

Sua obra mais conhecida, O pequeno príncipe (1943), começa com uma aula de desenho existencial. A obra-prima que o narrador fizera quando criança e que representava uma jiboia digerindo um elefante foi mal interpretada pelos adultos. Estes não souberam captar a dramaticidade do desenho e viram ali um mero chapéu. Os conselhos dos adultos (com uma visão adulterada do desenho) mataram um futuro pintor, um artista.

O narrador carrega a mágoa de não ter sido “elevado” à condição de pintor. Sua escolha pela aviação foi uma forma de substituir os voos da arte pelos voos da máquina. Mas, de qualquer forma, o artista não morreu nele, transformou-se, e por isso os seus voos literários.

O principezinho é o eterno Menino, que vive intensamente cada minuto, sem passado ou futuro, que sofre de solidão, e não se sente compreendido e amado. Sua busca de amigos é comovente. Sua dor é misteriosa – habita o misterioso “país das lágrimas”, como escreve Saint-Exupéry perante a tristeza do Menino, perante sua própria tristeza.

Saint-Exupéry apela para o leitor criança em que devemos nos tornar para entender os desenhos malfeitos. O próprio principezinho faz notar ao narrador/autor que as orelhas da raposa que ele desenhou parecem chifres e que os baobás estão mais para repolhos. Mas explica que as “crianças entendem” os desenhos imperfeitos. E os entendem, podemos deduzir, porque acreditam que os desenhos são tão reais quanto a própria realidade.

As crianças intuem, sentem, acreditam no que sentem, ao passo que os adultos querem explicações longas e convincentes, sufocam-se de razões. A história do encontro entre piloto e criança no deserto (o deserto simboliza a carência, mas também a oportunidade de um encontro profundo com a verdade) é uma pesquisa sobre a afetividade humana. Mais do que desenhos perfeitos, precisamos da aceitação do outro.

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